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Jornanda à descoberta de Salgueiro Maia

Esta semana conheci a presidenta Dilma Rousseff. Tenho o maior respeito pelo passado revolucionário dela. Na realidade, tenho um grande respeito por todos os homens e mulheres, uns mais anónimos que outros, que lutaram para que a minha geração, em vários países, tenha as liberdades civis e democráticas que usufruímos hoje. Isto fez-me pensar que o meu conhecimento da Revolução dos Cravos não é tão detalhado quando deveria ser., em particular em relação ao Capitão Salgueiro Maia. Por isso, decidi procurar mais informações sobre ele e compartilhar aqui esta jornada por um entendimento mais profundo de quem foi este homem que alterou o caminho histórico de Portugal, e das ex-colónias africanas, e levou o país à Democracia.

PASSO 1: o filme  "Capitães de Abril" de Maria de Medeiros
As narrativas históricas oferecem-nos oportunidades para entender eventos e personalidades, e os filmes são uma forma moderna de contar histórias. Talvez pareça estranho que eu comece com um filme, “Capitães de Abril”, uma vez que a narrativa cinematográfica resulta de decisões ideologicamente comprometidas de muitas pessoas, desde a realizadora, ao guionista, ao operador de câmara, aos estilistas, até aos recursos financeiros daqueles que de entrada acreditam no projeto e permitem realizá-lo. Também me preocupa que o contexto político e social de 1974 não seja passível de “tradução” para o cinema e que a cosmovisão e linguagem do passado sejam transformadas no presente do filme. No entanto, a história da nossa revolução é uma narrativa que se reproduz no revezamento de uma geração para outra, e porque faz parte de um conhecimento adquirido que se vai perpetuando, a forma como é contada é tão importante quanto a forma como aconteceu. “Capitães de Abril” situa-se nessa necessidade humana, portuguesa, de conectar com o passado e construir um entendimento para o presente e o futuro, que nos guia enquanto seres humanos pertencentes a uma comunidade. O ser humano é o seu próprio inventor, e no ato de contar, os portugueses são os seus próprios criadores. Assim, e tendo em conta todas estas limitações, uma das primeiras coisas com que fiz as pazes foi com a ideia de que esta jornada não me vai levar a conhecer o Capitão Salgueiro Maia, em vez disso vou conhecer muitas perspetivas sobre ele, enquadradas por outros tantos entendimentos ideológicos, mas quanto mais perspetivas conhecer, melhor vou poder chegar a um entendimento particular e pessoal sobre este homem.

“Capitães de Abril” apresenta uma interessante abordagem ao Capitão Salgueiro Maia, que muito contribui para o entender melhor. Utilizando um artifício cinematográfico, Salgueiro Maia aparece como duas personagens: uma representada pelo ator italiano Stefano Accorsi, e outra pelo ator português Joaquim de Almeida. O primeiro interpreta o capitão que inspirou tantos e que muitos seguiram; já o segundo interpreta a sua voz interna, o seu subconsciente, que ninguém vê ou ouve, mas que a nós, espetadores, nos dá acesso ao processo interno de decisão e negociação que levaram o capitão a fazer o que fez na madrugada de 25 de Abril de 1974. Dá-nos o benefício de entrar na comovedora cadência de emoções que mudou a nossa história.
Nos diálogos internos entre Salgueiro Maia e ele mesmo, descobrimos um homem profundamente comprometido com a liberdade e a democracia. Superficialmente aparenta ser um homem como qualquer outro, de uma banalidade constrangedora, mas no núcleo desponta um herói improvável, que se agarra a firmes princípios morais para transformar Portugal, mesmo colocando em causa a sua vida e a dos seus familiares. Neste filme, o capitão desafia todos os preconceitos sobre os militares como amantes de guerras, da carreira militar por falta de outras opções, dos militares como incapazes de pensar por eles próprios. Salgueiro Maia aparece como um homem atipicamente maduro, com ideias abertas e progressistas. Se inicialmente parece ser apenas outro capitão, a sua perspicácia permite-lhe ganhar a confiança daqueles sobre o seu comando, e a nossa. Mesmo os momentos em que não tem a certeza se está pronto para a responsabilidade que vai encarar, lhe dão uma profundidade invulgar em termos de discernimento. Apesar de sua relutância, ele é o elo fundamental entre o grupo de jovens soldados e o ideal de liberdade que os vai guiar.
Gostei muito de como Salgueiro Maia aparece neste filme, como um homem humilde e cheio de dúvidas, que se questiona a cada passo, que tem um sentido crítico e uma autorreflexividade invejáveis. Atrevo-me a dizer que talvez tenham sido essas qualidades que o tornaram tão eficaz. Fica muito claro para os soldados, para a população, para nós espetadores, para Portugal, que ele agiu por nós, sem qualquer interesse pessoal mesquinho ou nefasto. Eu sei que este é um filme épico, mas esta é a matéria de que se fazem heróis.

PASSO 2: a página da Wikipedia sobre o Capitão Salgueiro Maia

Vou ler e já volto com algumas impressões sobre o que aparece na página.





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