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Vou-me embora terça-feira

Vou-me embora terça-feira. Vou com muita vontade, porque tenho umas saudades loucas das minhas mulheres, mas vou com muitas coisas para contar. Aprendi a não me vestir como se fosse para uma festa junina, apesar de ser junho, porque o povo em Ipanema vai olhar, e vai olhar mesmo, com olhos de quem vê… e depois de olharem o pobre xadrez fora de lugar, vão olhar para a minha cara como se eu fosse um cachorrinho perdido; às vezes até sai um sorriso de empatia com o pobre estrangeiro desajeitado. [Os cariocas não querem admitir, têm muitas teorias, mas eu ainda acho que eles estavam com um pouco de inveja da minha camisa. Obrigado à Lorena que veio trabalhar com uma linda blusa de xadrez azul em solidariedade comigo.]
Há tantas pessoas de quem falar com a Lucinda. Além de ter tido estudantes fantásticos, um colegaço no Marcelo, e uma equipe de pessoas no IBEU, Lorena e LeonorRony e Clarissa, que nos acolheu com um profissionalismo incomparável, toda a cidade foi um grande laboratório de estudo, com lições simples e definitivas que nos fizeram mais atentos e observadores, que nos ajudaram a descentrar a nossa existência, na certeza de que nós e os outros vivemos este mundo com uma dignidade única, com um valor inerente, no respeito pelo ser que somos e pelos seres que são os outros. E, neste quesito, tive alguma ajuda da senhora que fica lá em baixo na portaria do edifício e que abre e fecha a porta a toda a gente que vem aqui. O nome dela é Marcela e ela é do Ceará, mas viveu no Piauí, numa cidade que se chama Piripiri, muito perto de Teresina que, por coincidência, conheço e foi quase como se conhecesse Piripiri. Como bom moçambicano e português, tenho a certeza que o frango de Piripiri deve ser uma maravilha. Ela quer fazer uma cirurgia para deixa de usar óculos, mas como não pode ver nem ao perto nem ao longe, e nesses casos um dos olhos é operado para poder ver ao perto, e o outro para ver ao longe, ela tem medo de não se habituar. Só hoje, depois de um mês, é que ela me perguntou “O senhor não é brasileiro, não é não?“ Nestas coisas do valor inerente, também tive a ajuda do senhor Sebastião que à hora certa, todos os dias, nos preparou o café, de manhã e de tarde. Ele é um senhor careca, não muito alto, que trabalha no IBEU e que faz tudo para passar despercebido, mas eu não pude deixar de notar como ele nos observa numa antecipação de nós mesmos. Volto com a vergonha de não lhe ter agradecido condignamente, mas senti que ele talvez não fosse ficar muito à vontade com a expressão de apreço pelo seu trabalho, habituado que está a passar por detrás dos outros. Ainda sobre o respeito pelo ser que somos, esta semana também conheci a Gleivalda, ela trabalha num dos elevadores da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Talvez isto pareça estranho para algumas pessoas, mas o trabalho dela é ficar seis horas sentada num elevador na UERJ e apertar os botões do elevador para as pessoas que sobem e descem. Com o cabelo preso e uma cara apagada, numa cadeira velha, com uma lâmpada diretamente sobre ela, vai perguntando qual o andar aos que entram. Quando o elevador para e as pessoas saem, grita se vai subir ou descer e o andar seguinte, e quem de direito vem a correr para o elevador. Sabem, é que nem todos os elevadores da universidade param em todos os andares. O dela para no segundo, quarto, sexto e oitavo andares. Quem quiser outro, tem que ver na parte de cima da porta do elevador se ele vai até lá. Eu não sabia, e acabei por ir pelas escadas do oitavo até ao décimo primeiro. Se tiverem tempo, o elevador não é muito rápido, experimentem perguntar à Gleivalda “quanto tempo fica neste elevador por dia?” que o rosto dela abre, as sobrancelhas sobem, e os olhos acompanham o sorriso, enquanto ela nos fala das seis horas. É aborrecido e não é, depende dos estudantes, mas pelo menos ela mora ali muito perto e chega a casa antes das filhas virem da escola. E eu saio e ela ali fica naquele vai e vem de gente.
Sempre levo comigo muitas coisas do Brasil. Desta vez, levo a Marcela, o Sebastião e Gleivalda e tenho a certeza que a Lucinda vai gostar. Até à próxima, que seja breve.