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Com que então, vocês achavam que sabiam muito sobre os Açores!!

Com que então, vocês achavam que sabiam muito sobre os Açores!!
Depois de quinze anos a ensinar português como língua estrangeira; depois de ter lido, visto, falado e assistido a muitas apresentações sobre os Açores nas minhas aulas, finalmente tive a oportunidade de estar em uma das nove ilhas do arquipélago. Todas as ferramentas que levei comigo ajudaram-me a navegar a especificidade cultural açoriana, mas não me preparam para o assalto de emoções e saturação dos sentidos que este espaço atlântico provoca.
Este ano, pela primeira vez, tiveram lugar em Lisboa e em Ponta Delgada dois cursos de formação para professores de português como língua estrangeira nos Estados Unidos. Estes cursos, organizados pelas Universidade de Lisboa e a Universidade dos Açores respetivamente, foram uma iniciativa da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento e Educação, que contou com o apoio do Instituto Camões (através da Coordenação do Ensino de Português nos Estados Unidos) e da Associação de Professores de Português dos Estados Unidos e Canadá. Foi através dos esforços destas organizações, que facultaram a informação a todos os membros das respetivas redes, que tomei conhecimento da realização destes cursos. Tive o privilégio de participar com mais onze colegas do último, que teve lugar na Universidade dos Açores, em Ponta Delgada.
Quando recebi o programa completo do curso, uns dias antes de chegar aos Açores, vi que as manhãs iam ser destinadas a discussões de questões teóricas sobre aquisição e metodologia de línguas estrangeiras, cobrindo uma diversidade de práticas pedagógicas que iam da literatura infantil, ao Acordo Ortográfico, a questões identitárias, às tecnologias da comunicação e informação etc. Para isso contámos com as intervenções dos professores Graça Castanho  (que também coordenou a formação e fez com que todos nos sentíssemos bem-vindos e apoiados em todos os momentos), José Carlos Pereira, Artur Veríssimo, Susana Mira Leal, Rosa Simas, Helena Pinto Ana Cristina Gil e Leonor Sampaio. Já as tardes iam ser preenchidas com visitas de estudo especificamente pensadas para nos expor ao maior número possível de informação sobre a ilha de São Miguel e os Açores em geral. E assim foi. Enquanto que as manhãs seguiram um procedimento que me é bastante familiar por ter sido usado com muito sucesso em outras ações de formação em que participei ou que eu próprio dei nos Estados Unidos, no Brasil e em Portugal, já as tardes foram uma completa surpresa que gostaria de partilhar brevemente.
Antes de falar sobre tudo o que vi e aprendi, tenho que destacar dois factores que permitiram que esta experiência fosse tão completamente especial. Em primeiro lugar, o curso reuniu um simpático grupo de professores que criou relações de amizade e um forte sentimento de comunidade no espaço de poucos dias. Este factor afetivo permitiu um empenho e motivação extra, o que deu origem a um trabalho colaborativo de elevado nível. O outro factor foram os instrutores, e neste grupo não estou simplesmente a falar dos professores, que com toda a propriedade e profissionalismo nos falaram de manhã, mas também de todos os açorianos com quem nos cruzámos e de quem e com quem aprendemos muito – que nos receberam de braços abertos, com carinho e humor, que conversaram connosco tanto nas ruas quanto nas soleiras das suas portas e nos convidaram para suas casas. Foi no meio desta riqueza humana que desenvolvemos o nosso trabalho.
Uma das primeiras coisas que fizemos foi visitar Ponta Delgada com a muito simpática professora e historiadora Susana Costa que nos mostrou a cidade através dos ciclos económicos açorianos. Esta escolha foi brilhante porque nos levou a conectar a arquitetura da cidade à atividade económica do arquipélago. Visitar os diferentes lugares que marcaram a história da cidade permitiu-nos adquirir um conhecimento baseado na vivência, uma coisa que nenhum livro ou palestra consegue transmitir. Foi muito fácil entender a posição estratégica do Alto da Madre Deus olhando para o porto desde lá de cima, ou sentir a emoção silenciosa das festas do Espírito Santo ao estar perante o Senhor Santo Cristo dos Milagres. 
Na viagem para as Furnas, com o atencioso professor e geólogo Carlos Gomes, percebemos a carácter temporário desta terra em movimento contínuo. O eterno puxa e empurra entre as várias placas geológicas, que criaram a natureza dramática da ilha, é evidente nos miradouros em que fomos parando. Avistar a lagoa ao longe tira o fôlego a qualquer um; por outro lado, o cheiro do enxofre que impregna o ar ao nos aproximarmos das caldeiras também nos tirou o fôlego, mas doutra maneira. As águas mineralizadas que saem das diferentes fontes testemunham a riqueza da terra, mas o sabor forte foi demasiado para mim. Apesar de todos os benefícios para a saúde, consegui beber muito pouco dessas águas, mas o suficiente para me aperceber que cada uma tem um sabor particular. Já nas terras quentes das Furnas tive que andar rápido ao sentir a sola dos sapatos aquecer rapidamente. Foi nesta viagem que testemunhei a relação que os açorianos têm com a sua terra, da qual desfrutam fazendo o famoso cozido das Furnas, que demora quatros horas a cozer, enquanto as famílias se banham nas águas límpidas coletadas na cratera do vulcão inativo. Vimos também muitas famílias rodeadas de hortências, a fazer piqueniques nos mais variados recantos da ilha preparados para os receber. 
Em Água de Pau, um nome que muito divertiu as nossas colegas brasileiras, visitámos uma mercearia tradicional que me levou à minha infância e à pequena aldeia perdida no meio de Portugal onde cresci e que era abastecida por uma mercearia muito parecida. Aí perto, no Porto da Caloura percebi a relação dos açorianos com o Atlântico. O mar marca muitos dos ritmos da ilha. É nele que as famílias se divertem, aproveitando um clima fantástico com pouca variação anual, mas é uma relação mais complexa. Um pescador que saía da água com vários peixes, pronto para preparar o jantar, mostrou-nos uma relação de conhecimento e respeito, em que os açorianos tiram do mar o estritamente necessário para viver.
Por pura coincidência tive o privilégio de assistir à gravação de um documentário que, num momento extraordinário, juntou quatro açorianos que conhecem as ilhas de agora e de outros tempos:  Urbano Bettencourt, Vamberto Freitas, Bruno da Ponte e Onésimo Almeida. Falaram sobre a especificidade cultural dos Açores e sobre o processo de criação e estabelecimento da região autónoma. Foi um momento incomparável, daqueles que não encontramos nos livros e em que os autores e atores da própria história da região falaram diretamente para a câmera, apesar de na minha imaginação eu achar que falavam para mim. Foram duas horas a ouvir histórias que valeram por um semestre inteiro.
A visita ao Museu da Imigração com a amável professora Rosa Simas foi dominada pelo silêncio. Apesar de sermos um grupo com origens diversas, a experiência de imigração faz parte das nossas vidas. Conhecemos o vazio que deixou e deixa em tantas vidas. No museu pudemos ver o poder do adeus em tantas caras cheias de uma esperança sofrida. Também vimos muita dessa esperança concretizada nos testemunhos de imigrantes que construíram vidas dentro de vidas nas mais diversas  áreas da sociedade norte-americana. Esta foi uma visita importante para aqueles que trabalham com falantes de português como língua de herança. Conseguimos muito material para encher aqueles olhitos curiosos que nas nossas salas de aula procuram no passado razões de orgulho em quem são e de onde vieram. O museu, sem dúvida, oferece essa história de uma forma muito simples e pungente. Nesse mesmo dia fomos também a ver a Casa do Arcano na Ribeira Grande, que guarda um tesouro regional de arte religiosa. Assim como a singularidade natural açoriana contrasta com a delicadeza de uma cultura insular marcada pela partida,  também as enormes dimensões do móvel que guarda cenas bíblicas esculpidas no século XIX pela Madre Margarida do Apocalipse contrasta com a delicadeza e fineza das pequeninas esculturas que compõem o relato bíblico.
Ao olhar para a nuvem que não me deixava ver a lagoa das Sete Cidades ocorreu-me que os Açores nunca voltaram a ser os mesmos nas minhas aulas. Ainda não conheço os Açores, conheço São Miguel, mas tenho agora um conhecimento novo e ferramentas novas para trazer uma outra experiência para as aulas. Quando a nuvem desapareceu, confirmando que nos Açores temos as quatro estações todos os dias, basta esperar um pouco, como dizem os açorianos, e o esplendor das duas lagoas apareceu, tirei logo a máquina fotográfica da mochila. Fui olhando para as fotos que tirava e para a realidade à minha frente, e fiquei com a certeza que, como aquelas fotografias, as minhas aulas nunca iriam poder fazer justiça àquela terra e àquelas gentes, mas mesmo assim vale a pena tentar. Como dizia uma das nossas colegas, agora entendo a paixão que a comunidade açoriana que vive nos Estados Unidos tem pelas suas ilhas.
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